Como eu era antes de você: o estupro como recurso narrativo e outras polêmicas

Como eu era antes de você: o estupro como recurso e outras polêmicas
Tempo de leitura: 8 minutos

Como eu era antes de você é uma história de amor que despertou bastante polêmica.

Tendo como foco o amor entre uma moça espevitada e um homem tetraplégico que decide acabar com a própria vida, a crítica caiu em cima da escolha pelo suicídio feita pelo rapaz. Porém, existe uma outra polêmica que os críticos não deram muita bola: o estupro como recurso narrativo.

O livro foi lançado pela autora Jojo Moyes em 2009 e logo se tornou um sucesso mundial por conter elementos inusitados para um livro de romance.

A protagonista, Lou Clark, é uma mocinha falante que usa combinações improváveis de roupa, o interesse romântico é um homem, Will Traynor, que sofreu um acidente e hoje é tetraplégico. Ela é contratada para ser a cuidadora dele e os dois se apaixonam.

Will é um homem soturno e mal humorado que detesta a vida que leva na cadeira de rodas, especialmente porque era uma pessoa extremamente ativa antes do acidente.

Lou é uma mulher sem ambições, não tem ideia de quem quer ser na vida, é maltratada e nada valorizada pela família e vive um relacionamento apático com Patrick.

O relacionamento que se estabelece entre Lou e Will é de ganho mútuo. Ele tem seus dias alegrados pela personalidade animada dela, enquanto ela é incentivada por ele a estudar e ver o mundo.

Os dois se apaixonam um pelo outro, mas Will está decidido a tirar a própria vida.

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A polêmica escolha pelo suicídio

Em determinado momento da história, Lou descobre que Will contratou uma clínica suíça para realizar um suicídio assistido, já escreveu seu testamento e que tem um prazo de seis meses para viver.

Ela encara esse tempo como um desafio: precisa fazer com que Will volte a gostar de viver e entenda que ele pode viver junto com ela. Porém, mesmo gostando de Lou, ele decide continuar com o plano.

A decisão da autora de escrever que um tetraplégico preferiu acabar com sua vida do que viver em uma cadeira de rodas gerou bastante polêmica no lançamento do livro.

Organizações de pessoas com tetraplegia se ergueram contra a escolha da autora, afirmando que o destino de Will era um desserviço para as pessoas que enfrentavam o problema e que um dia poderia vir a enfrentar.

Como Eu Era Antes de Você apresenta uma mensagem muito perturbadora à nossa sociedade de pessoas com deficiências. Para as milhões de pessoas que vivem vidas satisfatórias e ricas com suas deficiências, o filme diz que estaríamos melhor se cometêssemos suicídio”, foi a declaração de um dos grupos.

Entre os descontentes com o destino de Will também estavam os fãs do romance do livro que queriam ver o casal protagonista junto e feliz. Inclusive, quando a adaptação para o cinema foi anunciado, esses fãs pediram encarecidamente que Will tivesse um final diferente. Porém, não foi o que aconteceu.

O filme de 2016 com Emilia Clarke e Sam Claflin, seguiu a risca o final do livro.

A autora do livro, Jojo Moyes, não chegou a responder as polêmicas, mas a diretora do filme, Thea Sharrock, sim. Ela disse que não poderia mudar o final do livro e que uma história em que Will escolhesse viver seria uma história muito fácil de contar.

Segundo ela, respeitar a escolha do personagem em cometer suicídio é muito mais interessante. Porém, essa não foi a única escolha “ousada” que Jojo Moyes fez ao contar a história de Lou e Will.



 

Lou Clarke sobrevive a um estupro no livro

Durante todo o livro, presenciamos a personalidade de Lou Clarke e tentamos entender como uma mulher como ela não tem ambições e não tem vontade de sair da cidade pequena em que vive.

Ela é animada, criativa, tem uma inteligência emocional grande e, ainda assim, está presa num mundo que não a valoriza.

Lou tem uma família complicada: seus pais estão mais preocupados com o dinheiro que Lou coloca em casa do que qualquer outro aspecto sobre ela, ela tem uma inveja velada por achar que a irmã, Treena, é mais inteligente do que ela.

Nossa protagonista tem uma autoestima muito baixa, se deixando desvalorizar pela família, pela irmã e pelo namorado.

Com toda essa receita, conseguimos entender que Lou não tem grandes ambições porque isso nunca foi esperado dela. Ninguém no seu núcleo familiar acha que ela poderá ser alguém um dia, então ela nunca se preocupou com isso, sempre foi levando uma vida média na cidade pequena.

Esse, inclusive, é o background que a personagem tem na adaptação cinematográfica. Lou não tem ambições porque nunca achou que poderia ter, porque achou que o que tinha estava bom e porque nunca teve ninguém que a instigasse a querer ver o mundo. Porém, não é isso que acontece no livro.

 

Leia também: As personagens femininas em Jogos Vorazes, da Suzanne Collins

 

No livro, Lou era uma adolescente com vontades e desejos que, num impulso, comprou passagens aéreas para conhecer a Austrália. Porém, durante uma noite de bebedeira foi estuprada por um grupo de rapazes e se retraiu.

Ela conta no livro que Treena a encontrou depois do estupro, que a levou para casa e que as duas nunca falaram sobre o assunto, mas que ela tomou providências para que aquilo não acontecesse de novo.

Lou começou a se vestir como um homem nunca acharia atraente, se retraiu de sair para festas e para pubs e deixou crescer um medo imenso de sair da cidade.

 

A diferença da abordagem no filme

A diretora dos filmes, Thea Sharrock, também comentou em entrevistas a exclusão da trama de estupro da narrativa do filme. De início, ela acreditava que esta trama precisava estar presente, mas como ela mesma declarou:

“Sempre que tentávamos colocar isso no filme, ele acabava se tornando ‘o filme sobre a garota que foi estuprada’. E eu não acho que essa história seja sobre isso. Esse é um filme de duas horas que já tem muitas questões para debater. Não queria transformá-lo em um filme sobre um problema social. Eu não queria que a personagem se tornasse Lou Clarke, a garota que você conhece que sofreu abuso. Isso não é o que ela é, ela é maior do que isso.”

 

O estupro como recurso narrativo

Apenas pela comparação entre livro e filme, e pelas declarações da diretora, podemos perceber que o estupro na narrativa não foi necessário em momento algum.

Lou não precisava de um trauma em seu passado para não ter ambições – ela já tinha um núcleo familiar para entregar isso a ela. E lidar com esse trauma também não tem consequências na história.

O leitor descobre em dois momentos o que aconteceu: quando Lou comenta que tem medo do labirinto do castelo e conta parcialmente o que aconteceu lá, e quando Will a leva até o labirinto e ela tem uma crise, terminando por contar a ele o que aconteceu.

Will é a única pessoa na narrativa a dizer para Lou que ela não teve culpa e a trama termina por aí. Jojo Moyes trouxe o estupro como recurso narrativo para nos dar um motivo pelo qual Lou não tem ambições, porém, Lou é curada de sua falta de ambições por incentivo de Will.

Não faz sentido.

Escolher destacar uma trama de estupro na narrativa de uma história tem que servir para mais do que apenas dizer que a personagem passou por aquilo.

O estupro de Lou Clarke serviu apenas para ouvirmos da boca de Will que ela não teve culpa porque nenhuma outra trama do livro tem consonância com esse fato. De alguma maneira, o trauma de ter sofrido essa violência apenas a fez querer viver para sempre na mesma cidade.

A pior parte disso tudo é que durante a trama, a personagem não trabalha esse trauma a fim de superá-lo. De certa forma, esse trauma é curado pela convivência com Will e pela morte dele.

 

Leia também: A identidade feminina na narrativa de O Conto da Aia

 

O uso do estupro como recurso narrativo é bastante comum na literatura e no cinema, tendo exemplos bastante famosos. O mais recente, e que trouxe o assunto ao foco da grande mídia, foi a trama entregue à Sansa Stark em Game of Thrones.

A personagem vinha de um background traumático, mas ainda assim foi exposta ao estupro porque os escritores da série achavam que ela precisava passar por isso para crescer.

O estupro de Lou fica preso dentro dela mesma e a narrativa do livro parece esquecer do que aconteceu quando o romance com Will, e as necessidades de Will, entram em cena.

Mais uma vez, vemos uma história usar o estupro como recurso narrativo apenas por usar e  mais impressionante disso é que tudo foi escrito por uma mulher.



Redação Poeira Literária

Redação Poeira Literária

O Poeira Literária é um portal de literatura e cultura pop. Aqui falamos sobre histórias e como essas histórias se conectam com o mundo em que vivemos.

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1 Comment

  1. Avatar

    Moça, eu não sei se tive um problema de interpretação, mas esse NAO é o único sintoma de pessoas que sofrem estupro. Muitas delas só se sentem valorizadas quando alguém as enxerga sexualmente – ou seja, não sentem repulsa de sexo. Existem variações, não só um jeito de lidar com o medo, e isso não quer dizer que a pessoa já superou o trauma – pelo contrário: que ele está lá, só se manifestando de uma forma diferente.

    Eu mesma demorei a entender que a cura não é linear e que reagimos de formas diversas a ela, o texto está certo em questionar a falta de profundidade do livro nesse sentido, mas incorreto nesse outro apontamento.

    Aqui tem um post com variações de relações de mulheres:
    https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=2526574254095828&id=748935531859718

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